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Censo 2O22 e o retrato da fé

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou recentemente os dados do Censo Demográfico 2O22 sobre religião no Brasil, revelando mudanças importantes no perfil religioso da população na última década. A pesquisa mostra que 56,7% dos brasileiros — ou cerca de 1OO,2 milhões de pessoas — se declaram católicos. Em 2O1O, esse percentual era de 65,1%. Até a década de 197O, mais de 9O% da população brasileira se identificava como católica.
Os evangélicos somam agora 26,9% da população, o equivalente a 47,4 milhões de pessoas, ante os 21,6% registrados em 2O1O. Embora continuem crescendo, os dados revelam a primeira desaceleração dessa tendência nos últimos 62 anos. Já o grupo das pessoas sem religião passou de 7,9% para 9,3%, somando atualmente 16,4 milhões de brasileiros. Também houve aumento entre os adeptos de religiões de matriz africana, que passaram de O,3% para 1%, totalizando 1,8 milhão de pessoas.

Missão

23.06.2025 - 14:48:00 | 7 minutos de leitura

Censo 2O22  e o retrato da fé

Para o padre Marcos Roberto Almeida dos Santos, doutor em História Eclesiástica pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma), o Brasil vive um cenário religioso cada vez mais plural. Essa diversidade, segundo ele, configura uma cultura religiosa plural e múltipla, marcada por elementos do catolicismo, do evangelismo, das religiões afro-brasileiras e do universo dos sem religião — grupo que, apesar de não ter vínculo institucional com nenhuma crença, nem sempre se declara ateu.
Pároco da Paróquia São Francisco de Assis, em Maringá, e professor de História da Igreja na PUC Londrina, padre Marcos Roberto destaca que nestas últimas décadas tiveram mudanças estruturais na sociedade, no qual a transmissão da fé se dava de maneira natural, perfazendo no catolicismo como religião dominante no Brasil. No entanto, com o acelerado processo de urbanização e o advento das mídias sociais, favoreceram a fragmentação nas relações sociais, gerando com isso um pluralismo religioso com diversas particularidades e dimensões. O Concílio Vaticano II, realizado entre os anos de 1962 a 1965, recolocou a Igreja em contato com a realidade contemporânea, abrindo suas portas para os novos desafios da evangelização. Afirma padre Marcos Roberto: “O Concílio Vaticano II (1962-1965) muito sabiamente atualizou a Igreja em sua missão evangelizadora, transformando-a de uma instituição centrada em si mesma para uma Igreja voltada ao seguimento de Jesus Cristo, aberta aos desafios do mundo contemporâneo. Contudo, esse processo de assimilação das diretrizes conciliares leva tempo para se ajustar plenamente aos anseios propostos. O Papa Francisco é um exemplo de uma prática de Igreja mais próxima das pessoas, em resposta aos desafios atuais — na expressão do Papa, ‘uma Igreja em saída’.”


Ao comentar o crescimento evangélico, padre Marcos Roberto faz uma distinção importante: embora um quarto da população brasileira se identifique como evangélica, esse grupo não é homogêneo. Há grande mobilidade entre fiéis e uma enorme diversidade de igrejas, o que fragmenta sua identidade religiosa. “O evangelismo no Brasil possui muitas faces e reflexos. É um segmento com características muito distintas da Igreja Católica, que variam conforme a região e as condições socioeconômicas dos fiéis”. 
Mesmo com a desaceleração no ritmo de crescimento, o segmento evangélico continua em ascensão. Para o padre, há fatores sociais e estruturais que ajudam a explicar esse movimento, especialmente nas grandes cidades. “Uma das razões é a capacidade das igrejas evangélicas de responder de forma rápida e direta às dores e urgências da vida urbana — e suas consequências para a vida pessoal, familiar e social”, analisa.


Arquidiocese de Maringá

Apesar das transformações no cenário religioso brasileiro, a Arquidiocese de Maringá, que abrange 27 municípios do Noroeste do Paraná, continua sendo um território de forte presença católica. De acordo com dados do Censo 2O22, 7O,5% da população no território da Arquidiocese se declara católica — número superior à média estadual (63%) e à nacional (56,7%). Embora o índice tenha caído em relação a 2O1O, quando era de 75,7%, a fé católica ainda molda profundamente a paisagem social, histórica e espiritual da região. Os evangélicos passaram de 18,5% para 23,7%, enquanto os sem religião somam 3,3% — abaixo da média nacional.


Para o padre Marcos Roberto, os dados refletem um movimento semelhante ao que ocorre em todo o Brasil, mas com características próprias. “A Arquidiocese de Maringá acompanha as mudanças no cenário nacional, com as devidas proporções. Apesar da fragmentação religiosa, a presença da Igreja Católica ainda é marcante e significativa”, analisa.
Segundo ele, essa permanência se explica, em parte, pela própria história da região, em que a Igreja esteve presente desde a fundação das cidades. “A Igreja faz parte da cultura e da construção da identidade local. Muitas vezes, a história de um bairro se confunde com a história de uma paróquia. A Igreja tem a capacidade de dar sentido religioso à vida das pessoas, mesmo entre aquelas que não se declaram católicas.”
O Arcebispo metropolitano de Maringá, Dom Frei Severino Clasen, OFM, também avalia os dados com atenção e esperança. Para ele, a desaceleração da queda no número de católicos é um sinal positivo, que exige ousadia pastoral e compromisso contínuo. “Tem diminuído a queda do catolicismo, sobretudo em nossa Arquidiocese, que ainda conta com cerca de 70% da população como católicos. A preocupação, ou melhor, a ousadia pastoral deve ser insistente e continuada. Se há uma desaceleração, significa uma reação positiva.”
Dom Severino acredita que o fortalecimento da vida pastoral passa pela valorização das pequenas comunidades e da ação concreta da Igreja no cotidiano das pessoas. “É preciso fomentar a espiritualidade, o valor dos sacramentos, o amor ao próximo. Temos visto um número significativo de jovens retornando à catequese, o que é um grande sinal de reacendimento da fé.”


Os dados do Censo são também um chamado à renovação da ação evangelizadora. Em um mundo cada vez mais urbano, veloz e plural, a missão da Igreja precisa se atualizar sem perder sua essência. “O que sustenta a fé não é a grandiosidade dos templos ou a beleza dos ritos, mas o testemunho de vida cristã. A Igreja precisa ser misericordiosa, acolhedora, servidora, promotora da justiça e da paz”, reforça o padre Marcos Roberto.
Na avaliação dele, o futuro do catolicismo na região depende da capacidade de fortalecer o senso de pertencimento à fé, por meio de pequenas comunidades, espiritualidade enraizada no cotidiano e itinerários consistentes de iniciação à vida cristã. “A fragmentação social desfavorece o vínculo com a comunidade de fé; mas, quando o fiel encontra uma comunidade acolhedora, onde pode experienciar o encontro com Cristo e com o próximo, isso gera fidelidade. O futuro da Igreja está nessas experiências de base: encontro com Cristo, vida comunitária, formação e missão.”
Dom Severino conclui com um chamado à valorização do laicato e à missão cotidiana. “Quanto mais valorizarmos os leigos em suas atribuições nas comunidades, mais viva será a presença do Evangelho nas escolas, nas empresas, nas famílias, nas comunicações. A missão está em todos os espaços. A dimensão missionária é a fonte mais segura para atrairmos as pessoas para junto de nós.”

"O futuro da Igreja está nessas experiências de base: encontro com Cristo, vida comunitária, formação e missão 
padre Marcos Roberto

risto e com o próximo, isso gera fidelidade. O futuro da Igreja está nessas experiências de base: encontro com Cristo, vida comunitária, formação e missão.”
Dom Severino conclui com um chamado à valorização do laicato e à missão cotidiana. “Quanto mais valorizarmos os leigos em suas atribuições nas comunidades, mais viva será a presença do Evangelho nas escolas, nas empresas, nas famílias, nas comunicações. A missão está em todos os espaços. A dimensão missionária é a fonte mais segura para atrairmos as pessoas para junto de nós.”

Expansão Global do Catolicismo
Embora a proporção de católicos no Brasil tenha diminuído, o país ainda abriga a maior população católica do mundo em números absolutos. Segundo o Anuário Pontifício de 2024, a população católica global passou de 1,39 bilhão para 1,406 bilhão, um crescimento de 1,15% entre 2022 e 2023.

Em outras regiões do mundo, o catolicismo tem ganhado novo impulso. Veja alguns destaques:
Na França: a Conferência Episcopal Francesa registrou um crescimento expressivo nos batismos de adultos em 2024. Foram 7.135 adultos batizados na Páscoa, ante 5.463 em 2023 — um aumento de mais de 30%. Entre os adolescentes, os números dobraram: de 2.861 para mais de 5.000. Jovens de 18 a 25 anos representam 36% dos catecúmenos — contra 23% antes da pandemia. O crescimento também se destaca nas zonas rurais: 29% dos batismos ocorreram nessas regiões.
Em 2022, o continente africano registrou o maior crescimento global no número de católicos, mais 7,3 milhões de fiéis, totalizando cerca de 272,4 milhões.

Fonte: Dados foram retirados do Censo demográfico 2022
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